Este artigo é uma autocrítica. Todos nós que trabalhamos com comunicação usamos de vez em quando as expressões “mídia online” e “mídia offline”. A primeira trataria dos meios inseridos na internet, enquanto a segunda se referiria aos analógicos. Contudo, um olhar mais atento à realidade do mercado, e à nossa própria vida como consumidores de conteúdo, revela que há décadas não existem mais mídias offline.
Ainda que haja certas entregas físicas, como um jornal em papel, é inegável que todos os meios, inclusive os impressos, estão e são online. E essa digitalização vai bem além da distribuição, pois está presente também na produção e no consumo de conteúdo há mais de 30 anos.
Conforme eu escrevi em um artigo recente, as emissoras de rádio transmitem suas programações ao vivo na internet desde meados dos anos 1990, mesmo período em que a Editora Abril criou os primeiros sites para suas revistas. Em 28 de maio de 1995, surgiu a primeira edição online de um jornal brasileiro, no caso, o Jornal do Brasil. O outdoor renovou-se de forma extraordinária, incorporando a mídia programática e as telas. Até de nome mudou: agora é digital out-of-home (DOOH). E as salas de cinema, que, por óbvio, são um espaço físico, também estão online. De acordo com a Associação Brasileira das Empresas Exibidoras Cinematográficas Operadoras de Multiplex (ABRAPLEX), praticamente todas as salas no país são digitais. É cada vez mais raro encontrar exibições em película.
O caso da televisão merece um detalhamento especial. As redes de TV aberta começaram a entrar na internet antes mesmo de ela ter sido lançada como serviço comercial no Brasil, algo que ocorreu em 1º de maio de 1995. Conforme consta no Whois do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), tanto a Globo quanto o SBT registraram seus domínios antes de 1995. Já a CNT registrou em 27 de dezembro de 1996, a Band em 10 de abril de 1997 e a Record em 15 de maio de 1997.
Também em 1997, o SBT lançou o provedor SBT Online (SOL), pioneiro em oferecer acesso ilimitado por um preço fixo. Posteriormente, em março de 2000, a Band tornou-se sócia do iG, que tinha apenas três meses de existência e foi o primeiro a fornecer conexão gratuita à internet. Ambos foram importantíssimos para a popularização da web no país.
A inovação em termos de conteúdo acompanhou esse ritmo. Por coincidência, a primeira versão para internet de um telejornal nasceu no mesmo dia em que a Record garantiu sua URL: 15 de maio de 1997. Mas, dessa vez, quem merece os créditos é a saudosa Rede Manchete. Todo dia, a partir das 23h, era possível ler no site BlochPlanet a transcrição das reportagens exibidas no Jornal da Manchete, além dos comentários de Carlos Chagas e Villas-Bôas Corrêa e artigos de Alberto Léo, Denise Campos de Toledo e Paulo Stein.
Poucos dias após esse movimento da Manchete, a Globo fez a primeira transmissão por streaming ao vivo de um programa de TV brasileiro. Em 1º de junho de 1997, o Fantástico foi exibido pela web para o mundo todo, exceto o Brasil. O correspondente da emissora em Nova Iorque, Lucas Mendes, relatou a experiência: “É extraordinário pelo pioneirismo na América do Sul. Mesmo as redes americanas, poucas delas oferecem programas na internet em tempo real. A qualidade do áudio é quase tão boa como a do rádio. A do vídeo é pior, né? O movimento não é natural, é meio picadinho”.
Ou seja: a TV Globo entrou no streaming oito anos antes de o YouTube surgir e uma década antes de a Netflix lançar sua plataforma de vídeo online. Sendo assim, é incorreto afirmar que a televisão aberta esteja ou seja offline. Ela não só é online como é uma das responsáveis pela construção daquilo que entendemos como internet.
E mesmo a transmissão por radiodifusão de sons e imagens (broadcast) começou a ser digital no Brasil em 1998, quando ocorreram os primeiros testes de TV em alta definição. A virada de chave oficial se deu em 2007. Hoje, não existe emissora aberta no país que ainda opere com sinal analógico. E já estamos na era da DTV+ (TV 3.0).
Não se mostra mais razoável, portanto, definir a web e o digital como restritos a áudio online, banner, buscador, rede social e vídeo online. Parafraseando Juan Domingo Perón, internet somos todos. Digital é uma tecnologia que atravessa 100% das mídias e vai além de qualquer site. Pensar diferente disso é estar preso aos anos 1990, quando a TV teve que fazer muita força para transformar a web naquilo que ela é hoje: algo popular.
Fernando Morgado é consultor e palestrante com quase 20 anos de experiência nas áreas de mídia e inteligência de negócios. É Top Voice no LinkedIn e tem livros publicados no Brasil e no exterior, incluindo o best-seller Silvio Santos – A Trajetória do Mito. Foi coordenador adjunto do Núcleo de Estudos de Rádio da UFRGS. Mestre em Gestão da Economia Criativa e especialista em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Acesse o Instagram de Fernando Morgado.
Foto de capa: IA/ChatGPT