Recentemente, Daniel Starck, proprietário do portal tudoradio.com, escreveu um importante artigo sobre o Rádio 3.0. Recomendo a leitura. No texto, o jornalista aprofunda o significado desse conceito lançado pela ABERT, que abraça as diversas formas de entrega de conteúdo que as emissoras vêm acumulando, principalmente durante as últimas três décadas. “[O Rádio 3.0] traduz para o mercado e para o público em geral o atual momento do rádio: o áudio ao vivo, pelo FM ou streaming, sendo a base de uma atuação multiplataforma”, escreveu Daniel.
E é justamente esse ponto que eu gostaria de aprofundar aqui: a tradução para o mercado e para o público em geral. Percebo que muitos radiodifusores ainda não entenderam que a função primordial do conceito Rádio 3.0 é comunicar amplamente, e de um jeito mais fácil, tudo aquilo que o rádio já é e já faz há muito tempo.
Isso, aliás, também é tudo aquilo com que as agências de publicidade, os anunciantes e os ouvintes já lidam há anos, mas que, por ser tão natural, pode passar despercebido. O rádio se mistura de tal maneira à rotina e a outras atividades, como cuidar da casa e dirigir, por exemplo, que certos aspectos do meio acabam não sendo ressaltados. É “a dor e a delícia de ser o que é”, como escreveu Caetano Veloso.
Ao contrário do que alguns pensam, o Rádio 3.0 não tem nada a ver com alguma mudança no padrão de transmissão, o que exigiria a compra de novos equipamentos. Trata-se, primordialmente, de um termo para ajudar a comunicar, de forma simples e direta, tudo aquilo que as rádios já fazem há muito tempo para levar seus conteúdos para múltiplas plataformas, do dial ao streaming. É, portanto, uma expressão que vem para enriquecer e facilitar o discurso de defesa comercial e institucional do rádio brasileiro.
Mas deixo claro que, apesar de não ter a função de representar movimentos propriamente novos, o conceito Rádio 3.0 não é menos sólido. Muito pelo contrário. Exatamente por ser lastreado em fatos incontestáveis de um setor que, como venho repetindo em artigos e palestras, é online desde que o online nasceu, o Rádio 3.0 nasce da coisa mais importante que existe na comunicação: a verdade.
E essa verdade também se traduz nos ótimos resultados que o meio registra nas pesquisas de mercado nacionais e internacionais, sejam aquelas que mostro nas minhas redes sociais, sejam as que foram compiladas por Cristiano Stuani, Daniel Starck e Juliana Paiva no relatório divulgado pela ABERT.
Ou seja: o grande valor do Rádio 3.0 não está no ineditismo daquilo que o define, mas na veracidade daquilo que ele representa. Trata-se de uma síntese do enxame de tecnologias que invadiu o rádio nos últimos anos e que as emissoras usam para levar seus conteúdos e anúncios a diferentes plataformas, mas que nenhum leigo é capaz (ou mesmo tem a obrigação) de dominar: agregadores, FAST, influencer marketing, RDS, rádio híbrido, streaming etc.
O Rádio 3.0 é, portanto, algo que resume dados da realidade de grande parte das emissoras do Brasil. No momento em que todo o mercado de radiodifusão compreender isso, poderemos partir para uma segunda etapa: transformar esse conceito em uma filosofia geral, capaz de inspirar tanto aquelas poucas rádios que ainda estão para trás em termos tecnológicos quanto aquelas que já são multiplataforma, mas ainda podem explorar novos recursos, sem que isso necessariamente se desdobre em novas despesas.
Veja o caso do rádio híbrido, por exemplo: seu bom funcionamento depende primordialmente de uma boa organização de metadados, algo que não envolve custos diretamente. Trata-se mais de priorização do que de dinheiro. E priorização vem de estratégia. E estratégia só é possível quando se define o que é o mercado de rádio na atualidade.
Fernando Morgado é consultor e palestrante com quase 20 anos de experiência nas áreas de mídia e inteligência de negócios. É Top Voice no LinkedIn e tem livros publicados no Brasil e no exterior, incluindo o best-seller Silvio Santos – A Trajetória do Mito. Foi coordenador adjunto do Núcleo de Estudos de Rádio da UFRGS. Mestre em Gestão da Economia Criativa e especialista em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM. Acesse o Instagram de Fernando Morgado.